Tocando o nosso relato de viagem, nesta publicação conto pra vocês como foi um dos momentos mais marcantes no continente africano, o safári.


Dia 04

Depois de três orçamentos iniciais, já estávamos começando a digerir a ideia de que o safári sairia em um valor bem maior do que havíamos planejado. Para um passeio de dois dias na África do Sul, no Kruger Park, estavam cobrando entre 400 a 550 dólares por pessoa.

Os passeios nas diferentes empresas eram basicamente os mesmos. Saída de Maputo, viagem para um hotel na entrada do Kruger Park, na África do Sul, alimentação inclusa e dois passeios. Um Night Safari e um Game Drive.

Pelo que havíamos pesquisado, o Night Safari era um passeio de final de tarde cuja a principal intenção era ver algum felino em atividade de caça. Tal evento não é nada fácil de observar, mas esse é o horário mais indicado. Já Game Drive é um passeio de dia inteiro, saindo às 5 da manhã e chegando às 18 ou 19h. Neste a intenção era visualizar o máximo possível de animais e, principalmente, os Big Five (elefante, leão, leopardo, rinoceronte branco e búfalo).

Cerca de cem metros do hotel havia uma empresa de turismo e fomos lá nos informar. Eles não faziam os passeios para África do Sul, mas nos indicaram um outro local que fazia. Fomos ao endereço indicado, mas não havia nada.

Agora, tem coisas que acontecem por coincidência e não há como explicar... Quando chegamos no local indicado e não encontramos empresa de turismo alguma olhamos um pouco ao redor procurando por alguma informação, sem sucesso. Foi aí que resolvemos abordar alguém na rua para ver se podia nos ajudar. Chamamos a primeira pessoa que cruzou na nossa frente.

O cara nos disse que TRABALHAVA na Muhimbi África, a empresa que estávamos procurando. Ele nos deu o endereço, o telefone e a gente já ligou, pediu orçamento e já recebemos por e-mail em alguns minutos. Todo o pacote de hotel, translado, alimentação e safáris saía por U$ 255!! Que boa coincidência!

Achar a empresa foi um parto. O lugar era longe pra caramba, as ruas lá não tinham nomes e as construções não tinham número. O taxista não conhecia nem a empresa nem a rua que procurávamos. Depois de rodar bastante e ligar algumas vezes, finalmente achamos o local.

Estranho é que a empresa não tinha fachada nem nada. Era uma casa de dois pisos, muito suspeita. Ao bater algumas palmas na frente do local, um simpático rapaz abriu o portão e nos recebeu, fomos entrando… no momento em que adentramos a casa, o cara trancou as portas com chave e ferrolho e pediu pra gente subir até o segundo piso…

Nessa hora todos nós gelamos. A casa estava toda com luzes apagadas, não havia uma placa se quer indicando que aquele local era uma empresa de turismo. O cara trancou a casa assim que entramos... e nós estávamos, cada um, com 255 dólares no bolso. Pensamos "já era, nos lascamos...". Na hora já fiquei me culpando por não ter desconfiado que tinha que ter algo de estranho com uma "empresa" que oferece um serviço por metade do preço das outras. Detalhe, conseguimos o contato com a empresa a partir de uma pessoa na rua!

A medida que fomos subindo as escadas a luz foi aparecendo. Ufa! Haviam duas mulheres trabalhando sentadas em computadores em uma sala refrigerada com alguns folders de turismo sob as mesas. Rui, o rapaz que nos recebeu, convidou-nos para sentar e falou sobre o passeio, o local onde ficaríamos alojados e como seria nossa passagem pela aduana. Tudo tranquilo. Fechamos o pacote para o Safari e voltamos ao hotel.

Durante a manhã, a Angélica havia conversado com uma senhora na feira e depois de algum papo combinou de jantarmos na casa da irmã dela, dona Alda. A ideia era comer algo do dia a dia do moçambicano e trocar algumas experiências com as pessoas.

Conforme o tratado, naquela noite fomos à casa de dona Alda, que nos recebeu muito bem. Querida, deu pra ver que ela se esforçou para que a casa e a comida estivessem o melhor possível. E realmente tava tudo muito bom. Demorou um pouco pra quebrarmos o gelo e a conversa fluir melhor.

Dona Alda nos contou da sua vida, dos seus filhos e netos, nos serviu um jantar típico com xima de camarão, matapa e molho de pimenta. Tudo tava excelente. Acertamos o valor, conversamos mais e voltamos para o hotel.

Dia 05

O combinado era que um tal Rafik (sim, igual ao xamã do desenho do Rei Leão) ia nos buscar às 8 da manhã para nos encaminhar aos dois dias de safári em território sul-africano.

Rafik foi uma das grandes pessoas que conhecemos nesta viagem. Uma cara excelente, com muito conhecimento da história, cultura e política do seu país. Um amigo que fizemos e que com frequência ainda conversamos. Gente boníssima, pessoa que só de lembrar nos dá vontade de voltar pra África.

Atualmente Rafik possui sua própria empresa de turismo, a Pérola Tropical, e realiza viagens para vários pontos do sul da África. Se para lá forem, procurem por ele.

Viajamos por um percurso de 150km até o Pestana Kruger Lodge, no pé do parque nacional. As estradas moçambicanas são muito boas e com várias faixas, o que deixa o tráfego com bom fluxo. Neste percurso passamos por dois ou três pedágios com valores próximos a 1 real.

Cruzar a alfândega na ida foi tranquilo, nada além do normal. Foi algo em torno de quatro horas de viagem.

Caminho de Maputo ao Kruger National Park

Matola, Moçambique.

Policiais rodoviários em Moçambique.

A chegada ao Pestana Lodge foi só alegria. O hotel é muito chique! A gente nunca tinha nos hospedado em um local tão fodão como aquele. É uma área enorme com várias cabanas divididas em categorias que levam nome de animais (leopardo, leão, rionoceronte, girafa…). A recepção com um amplo terraço que tem vista para um rio com hipopótamos, búfalos e crocodilos da natureza. Um refeitório bonito e aconchegante, piscinas, bar… Sensacional.

Na recepção do lodge havia até um suco gelado e panos úmidos para refrescar. Quase não tomamos por achar que tinha de pagar... hahahaha! O Rafik deu muita risada.

Terraço do Pestana Kruger Lodge. Ô vida difícil…

Habitações do lodge.

Nós no terraço do Pestana, de frente para o Rio Crocodile.

Depois de chegar e arrumar as coisas, já nos aprontamos para o Night Safari. Este seria a bordo de um truck adaptado para levar até 15 pessoas mais o motorista.

Estávamos há alguns minutos de realizar um sonho. Algo que a gente só vê na tevê e acha que nunca vai ter condições de fazer... me sinto privilegiado por esses momentos. A sensação de ver fauna e flora de uma África que está quase em um plano extraterreno dentro da nossa cabeça é indescritível. Sério, até então não havia caído a ficha. Ver a primeira impala, o primeiro elefante nos transportou para um estágio de alegria e emoção únicos. Não vou tentar representar na forma de texto porque não dá.

Embora o passeio no Kruger Park seja considerado um dos melhores safáris do mundo, havíamos lido de que estes também podem ser muito frustrantes. Algumas vezes não são encontrados todos os animais esperados, os deslocamentos em alguns passeios são entediantes por não achar nada daquilo que se imagina ver… enfim, recomenda-se que sejam tirados de 4 a 5 dias para esse tipo de atividade a fim de aumentar a chance de ver os principais animais.

Tínhamos um dia e meio e… foi muito legal!! Não sei se foi a época do ano ou sorte mesmo, mas a gente viu muito bicho! Infelizmente não deu pra visualizar felinos caçando ou algo do tipo, mas todos os Big Five a gente pode observar com bastante calma e mais de uma vez.

Início do Night Safari.

black rhino

O rinoceronte negro é um animal bastante hostil. Este mesmo ameaçou o nosso veículo algumas vezes.

As impalas são os mamíferos mais abundantes e fáceis de serem observados.

elephant on the road

É muito comum encontrar elefantes cruzando as estradas do parque. Também muito comum é ver manadas inteiras.

Leptoptilos crumeniferus

O marabu é uma espécie de cegonha africana. Carnívora.

Após o primeiro safári, voltamos ao hotel. O jantar foi absurdamente bom! Comemos como desesperados! Havia muita variedade de de carnes, massas e vegetais preparados de muitas maneiras diferentes. Foi um banquete servido com cerveja sul-africana e pra completar, sobremesas maravilhosas… como é bom ser fino!

Ainda fomos na piscina lá pelas 22h e ficamos até a meia-noite… de manhã bem cedo, Game Drive (o safári de dia inteiro).

Nós no início do Game Drive Safari. 5h da manhã. Nestes sacos de papel estava o nosso café da manhã e almoço, preparados pelo pessoal do hotel.

Este foi o único leopardo que conseguimos visualizar. Dizem os guias que é o mais raro dos Big Five.

Conseguimos visualizar leoas por um bom tempo. Infelizmente o leão ficou deitado por mais de meia hora atrás de uns arbustos sem movimentar um músculo se quer.

Este é o famoso javali do desenho o Rei Leão, o Pumba. Notem que sobre ele há uma ave carrapateira em atividade de protocooperação.

Assim eram os veículos do safári.

Tivemos a oportunidade de observar por alguns minutos dois machos de impalas em uma briga territorial.

Chlorocebus pygerythrus

Este é o macaco-veludo (Chlorocebus pygerythrus)

white rhino

Dentre os grandes animais do continente, este é o que mais está ameaçado de extinção. Caçadores matam os rinocerontes para retirar seus chifres, que podem ser vendidos por até 50 mil dólares o quilo no mercado negro.

baby elephant

Bebês mamíferos são inquestionavelmente muito lindos… Os bebês elefantes são sensacionais! Vimos uma boa quantidade deles brincando e imitando o movimento de suas mães.

urubus

Abutres.

tortoise

Um jabuti chegou próximo do nosso carro.

Babuíno com filhote pendurado.

female kudu

Fêmea de um kudu.

Cephalophinae

O duiker, uma espécie de antílope pequeno.

A girafa foi um dos animais que se escondeu bastante. Não conseguimos uma foto de corpo inteiro dela.

Búfalos fugindo do sol.

baby zebra

Filhote de zebra e sua mãe.

Já de volta ao hotel, ainda vimos hipopótamos no rio que fica em frente ao terraço.

Hipopótamos e búfalos.

Aguardando a última refeição no Pestana.

Sobre o safári não há o que dizer. Inesquecível! Só acho legal fazer algumas considerações. Primeiro: nem sempre um aventureiro vai ter a sorte de encontrar tudo que espera encontrar. Segundo: os bichos normalmente não ficam tão perto quanto a gente vê na televisão, afinal, são animais selvagens. Terceiro: para nós que tínhamos pouco tempo, foi muito bom fazer os passeios com guias. Eles têm olhos e ouvidos muito treinados e encontram animais onde jamais encontraríamos. Além disso um guia se comunica com outro por rádio e conseguem informar outros grupos da presença de animais com boa visualização.

No passeio conversamos com pessoas que já fizeram vários safáris na vida e nos afirmaram que em cada um há surpresas e peculiaridades. E, caso ficássemos uma semana por lá, haveriam muito mais coisas para conhecer e animais para observar.

Passeios não guiados também são permitidos, podem ser feitos com carro particular ou alugado, mas somente em estradas próprias para este tipo de atividade, sem a permissão de sair delas sob hipótese alguma.

Outra coisa legal de comentar é que o nosso guia nos explicou que, embora o Kruger Park tenha uma equipe com vários biólogos e veterinários, nenhum tipo de intervenção é realizada na fauna, flora ou ciclos biológicos. Por exemplo, se durante um safári é encontrado um elefante machucado ou agonizando, nada é feito. Este animal não será tratado ou algo parecido. O estado frágil dele é importante para outros seres vivos, como leões jovens que ainda não têm muita prática de caça. Salvar o elefante significa deixar outros animais sem ter o que comer.

A volta da África do Sul eu conto na postagem seguinte. Até.