Seguindo a nossa série de férias, continuo falando sobre o segundo dia de viagem na capital moçambicana.

Parte 1 aqui.


Dia 02

Após o almoço, nosso rumo era mais um local que achamos pelo guia da Angélica, a FEIMA (Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia). Esse era um pouco longe e fomos de txopela, motos adaptadas para transporte de até três pessoas e o motorista exatamente igual ao popular tuk tuk indiano. Nos custou 350 MZN (R$ 17,50) para dividir em três. Embora não tão perto, no Brasil seria mais barato.

Mapa com a distância entre o restaurante O Criador e a FEIMA.

txopela, choupela, tchopela

Guilherme, Camila e Henrique dentro da txopela.

A FEIMA é demais, dá pra tirar tranquilamente uma tarde por lá. Os artesanatos são basicamente os mesmos do Mercado Municipal, mas com muito mais variedade. O produto mais característico da feira são os batiks, panos pintados em uma técnica que envolve tintura, fervura e cerificação. Não tem como não se admirar com o trabalho destes artistas, é foda.

Este é um bom local para adquirir presentes aos queridos. De estatuetas em madeira, batiks, máscaras até camisetas e ímãs de geladeira. Tudo muito em conta e negociável.

Os batiks são o mais característico artesanato moçambicano.

Bolsas expostas na Feira de Artesanatos, Flores e Gastronomia de Maputo.

Esculturas em madeira expostas na Feira de Artesanatos, Flores e Gastronomia de Maputo.

Esculturas em detalhe expostas na Feira de Artesanatos, Flores e Gastronomia de Maputo.

Na volta caminhamos bastante. Descemos em direção a Av. da Marginal e viemos por lá por um longo percurso. Neste caminho passamos pelo Clube Naval de Maputo, entramos, tomamos algumas cervejas da marca Laurentina, que é bastante amarga e, se não for bem gelada, não apetece.

No clube, em si, nada de legal. Voltamos todos nós em um táxi por 600 MZN até o Taka-Taka. Lá jantamos o mesmo do primeiro dia pra depois ir ao Gil Vicente onde o nosso camarada da noite anterior, Féling Capela, ia se apresentar.

A boa da noite no bar era um espetáculo de palco aberto, o Capela intercalava música psico-moçambicana com poesias e convidava amigos também artistas para subirem, e assim cada um foi montando, aos poucos, mais uma noite fodástica.

Em certo momento a temática do espetáculo chegou ao Brasil e ao samba. Claro que esperavam algo da gente! E a nossa musa do samba sulino (hahahaha) fez bonito! Subiu no palco e apavorou, o bar todo aplaudiu. Foi demais!

Camila dançando no Gil Vicente, Maputo – Moçambique.

A banda desta noite era tão sensacional como a da anterior. Galera que tem música de corpo e alma. Um tecladista; um europeu no sax, trompete e um instrumento feito de concha; o Capela que fazia toda a frente; e um batera de uma energia indescritível.

Mesmo com a sonzeira toda, o que mais nos emocionou foram os poemas de uma lindíssima moça chamada Tassiana Tomé. Aqui, um deles:

Eu sou africana

Não pelas roupas que visto
Não pela língua que falo
Nem mesmo pelas músicas que canto.

Eu sou africana
Não na estética cosmética
Não na racialização da autenticidade
Não nas definições que eles me trazem
De uma história trágica
De uma beleza folclórica e exótica
Para encher galerias e museus.

Eu sou africana
Mas não de uma África singular
Estática e fixa
Romantizada na imobilidade temporal
Caracterizada entre o erótico e o primitivo
Estereotipada para fetiche turístico
Minha pele e meu cabelo
Não são para consumo científico

A África que me renasce todo o dia
Não é alimento para cartão postal
Conforto estrangeiro
E pesquisa antropológica
Para se arquivar nas europas

Eu sou africana simplesmente porque sou
Sou feita das tuas dolorosas contradições
Sou feita de toda tua pluralidade
Sou feita do que não pude aprender
De saberes de uma ancestralidade
Recusada e apagada
Renovada e reimaginada
Sou feita de terra batida e cimento
De legados de colonialidade
E urbanidades reinventadas
Sou chona sou luso sou changana
Sou identidade sem rótulo
Sou etnias cruzadas sem clausura
Sou africana simplesmente porque sou.

Não tenho como desfazer
As tuas montanhas dos meus olhos
Nem tenho como remover os teus rios
Do meu útero
Minha melanina são as tuas poeiras e estrelas.
Nos meus ossos fracturam-se
As lutas que não lutei
E que hoje me deixam re-existir
Não tenho como deixar de amar
Todos que te plantam com cuidado
Estás nos meus sonhos e desejos
Estás na forma como me tormento
Com a expropriação
Que chamam de desenvolvimento
Na forma como te deixei
Sem nunca deixar-te
Só para voltar a ti
Porque sempre te pertenci
Estás na forma como carrego
Samora e Sankara
E ainda acredito que a luta continua
E se assim sou, é porque sou tua
E acredita, se me fizer nómada de novo
Viajando meu corpoalma com fome de mundo
Me manterei tua, serei sempre tua
Porque sou de ti e para ti:
Africana simplesmente.

No post anterior eu disse que ia deixar para falar do Féling Capela depois. Bom, quem, na verdade, fez o contato com ele foi o Henrique na primeira noite. Eles conversaram bastante e por meio dessas conversas é que ficamos sabendo que o Féling é artista bastante popular no país, que também está envolvido em causas sociais e que, com certa frequência, visita o Brasil em simpósios e congressos. Já teve a oportunidade de, inclusive, dialogar com o então presidente Lula.

Nos disse muitas coisas legais sobre o nosso país. Coisas que a gente por estar vendo tudo de dentro, não enxerga... vários moçambicanos admiram o Brasil e o brasileiro. E, olhando para eles próprios, percebem que o nível de independência colonial que adquirimos é muito maior do que o deles. Moçambique conseguiu independência de Portugal apenas em 1975 e eles ainda vivem de maneira muito forte o estado de colônia. Social e culturalmente.

Um exemplo interessante que ele nos deu foi o fato do brasileiro não falar mais o português de Portugal, nosso idioma possui muitas particularidades. Outra percepção que tivemos, mas não pelo Féling, é a questão do futebol, da literatura, da televisão... lá, tudo tem como referência os colonizadores. Ainda é muito inicial a identidade própria moçambicana e ele, assim como vários outros artistas, fazem o trabalho resgatá-la e expressá-la de todas as maneiras possíveis. Roupas, fala, música, debates... enfim, foi muito legal conhecê-lo.

Terminado o show, lá pelas duas da manhã, ficamos sabendo de uma outra festa em um local bem próximo dali chamado Feira Popular. Embora o nome não remeta a balada, o lugar era, sim, a senhora balada! Não ficamos sabendo ao certo se lá rola uma feira convencional no período do dia, mas o certo é que durante a noite o lugar fervia. Era como uma entrada para uma feira, só que no lugar de bancas, haviam pequenos cobertos com algo em torno de 10×20 metros em que um DJ largava as músicas e a galera amontoada dançava até perder a sola dos pés. O valor de entrada era simbólico, 20 MZN (R$ 1,00).

Mapa mostrando a distância entre o Gil Vicente e a Feira Popular.

Não precisa nem dizer que foi o auge. A Camila estava realizada, fez mil amigas aquela noite.

De início o calor era desesperador, mas depois, povo… já era! Ficamos lá até quase umas 5 horas. Todas essas músicas que são hits internacionais, incluindo “Ai se eu te pego” tocaram naquela noite.

Voltamos de táxi, mais uma vez realizados, para o Taka-Taka. No outro dia ninguém conseguiu acordar para pegar o matabichu (o café da manhã). Só acordar já foi de bom tamanho.

Dia 03

Nossa ideia inicial era almoçar no famoso Mercado do Peixe, contudo o Beto havia feito uns “amigos” novos na noite anterior e eles nos recomendaram de almoçar em lugar chamado Ocean, que, pelo que o Beto havia entendido, era próximo ao mercado. Mas não era…

O restante eu conto na sequência.