Chegando a mais um final de ano e, finalmente, às férias resolvi compartilhar com vocês um projeto meu que acabou ficando inacabado. O Biologia em Férias, onde conto um pouco sobre o que tenho feito no período em que estou fora de sala de aula.

No final de 2016 e início de 2017, tivemos o privilégio de conhecer o Moçambique e compartilhei aqui no blog um pouco sobre a semente desta viagem. Como ela aconteceu e os detalhes do porquê da trip.

Na postagem de hoje falo um pouco dos primeiros dias na capital moçambicana, Maputo, e nossas primeira experiências e impressões. Espero que curtam.


Dia 01

Era a primeira vez que nós havíamos cruzado o Atlântico, claro que a emoção era enorme. O Aeroporto Internacional de Maputo é modesto, mas muito bonito. A gente estava tão empolgado que até esqueceu de tirar umas fotos dele de frente.

Maputo Airport - Mozambique

Lateral do aeroporto Internacional de Maputo – Moçambique

Nossa primeira providência foi trocar alguns dólares por Meticais, e o câmbio foi bem favorável. Aliás, não era necessário nem ter levado dólares… a conversão podia ser feita direto em Real em valores melhores do que os pagos em duas conversões. Com o detalhe que em outras cidades provavelmente o câmbio não é tão fácil assim.

Como estávamos em 5 e com bagagens grandes, optamos pelo transporte em uma van. O valor acertado foi 1000 MZN (R$ 50). Justo. E então chegamos ao único hotel ao qual fizemos reserva antecipada, o Taka-Taka. Um hotel árabe, com restaurante, muito acolhedor, bem localizado, com funcionários extremamente gentis, limpo, simples e barato.

Após o banho, fizemos a nossa primeira refeição em solo africano no próprio Taka-Taka. A pedida foi um caril de cabrito, matapa, xima, frango e Fanta ananá (abacaxi).

Hotel Taka-Taka, Maputo – Moçambique

Aguardando a primeira refeição árabe/moçambicana.

Em Moçambique existem muitos árabes, algumas pessoas nos disseram que são, em Maputo, mais de 30% da população. Por isso, é comum qualquer restaurante servir cabrito ao invés de carne bovina e quase sempre excluir porco do cardápio.

Aqui cabe já explicar um pouco sobre as primeiras experiências com a comida de lá. O arroz com feijão deles é a xima com matapa. A xima é algo como um purê feito de farinha de milho branco. Análogo a polenta. Fonte de carboidrato, energética, mas pouco nutritiva. A matapa é um cozido feito de folha de mandioca (aipim) pilada. Usualmente leva amendoim e, em situações especiais, pode conter camarão ou caranguejo. Os dois combinam, mas não são uma comida assim saborosíssima quando preparada de modo simples. Agradam e sustentam. Só. Interessante foi descobrir que eles não comem a raiz da mandioca.

Agora, o tal caril, é muito bom. Chamam de caril qualquer molho cuja a base de tempero seja o curry. Essa mistura é vendida pronta, na forma de um pó, em qualquer feira ou mercado, mas acredito que cozinheiros também o fazem na hora com condimentos frescos. O pó de caril (curry) é misturado tanto em molhos brancos quanto vermelhos e o sabor é bastante acentuado em quase toda carne que você vá comer por lá.

Nesta hora a gente já havia esquecido o cansaço. A vontade de conhecer Maputo suprimia qualquer estado fisiológico. A ideia era ir a um bar chamado Gil Vicente. Pelo que havíamos lido em guias e fóruns, este está entre os lugares que você não pode deixar de ir na capital.

O local era próximo ao hotel, mas de início não sabíamos se era seguro andar de noite por lá. Nos informamos de que era muito tranquilo e, de fato, foi. Todos os dias.

As ruas de Maputo, embora não muito bem preservadas, são largas, bem sinalizadas com placas em todas as esquinas e, cuidado, operam em mão inglesa. Parece bobeira, mas isso dá um nó na mente até pra atravessar as vias, a gente sempre se engana em relação a qual lado olhar. Foi fácil chegar ao bar. Que fica em frente ao Jardim Botânico Tunduru.

Gil Vicente Bar-Café

Trajeto entre o Hotel Taka Taka e o bar Gil Vicente

Na porta do Gil Vicente, fomos informados que a atração principal da noite era um jazzista chamado Deodato Siquir e que antes haveria um show gospel (!!) com Panguel Chongo. Nenhum de nós nunca tinha ido em show de música gospel, pensamos ser a maior furada e… mordemos a língua. O show foi animal! Uma sonzeira sem limites. O Panguel no vocal me faz arrepiar só de lembrar e a guria, convidada pelo grupo naquela noite, fez todo mundo ficar atônito. Sensacional mesmo!

Eles tocaram por uma hora e pouco, em seguida, depois de um intervalo, chega Deodato Siquir Trio. A banda é composta por um baixista, um tecladista e o Deodato, que é um puta baterista e ainda canta.

A noite é inesquecível. Na África, em língua portuguesa, num bar belíssimo, chope 2M de 500mL a 80 MZN (R$ 4), ouvindo duas sonzeiras… só emoções.

Nesta mesma noite conhecemos três brasileiros de Porto Alegre que aproveitaram também a promoção da TAAG e estavam lá, curtindo o mesmo momento que a gente. Além deles, um moçambicano chamado Féling Capela. O Féling é poeta e músico maputense e dele eu falo na sequência.

Féling Capela with friends

No Bar Gil Vicente, com Féling Capela e três portoalegrenses que conhecemos por lá. Ao som de Deodato Siquir Trio.

Dia 02

Voltamos a pé e dormimos igual pedra. De manhã, tomamos nosso mata-bicho (como eles chamam a primeira refeição do dia) com ovos, torradas, suco de caixinha e café preto. Bem meia boca, mas sustentou.

Nosso destino era o Mercado Municipal, outra parada que já estava definida. O mercado é uma feira típica, semelhante às que temos por aqui, com setor de vegetais, condimentos, temperos, peixes, carne seca e muito artesanato. Pinturas, esculturas, tecidos tingidos. Tudo muito legal.

Outro comentário. Tivemos de imediato, nesses dois primeiros dias, a impressão de que o povo moçambicano tem uma relação muito estreita com a arte. Música, plásticas, literatura... claro que isso não é o meio de vida da maioria da população, mas a arte aparece por todos os lados. Mais tarde reforçamos esta ideia ao conversar com as pessoas e conhecer minimamente a estrutura escolar moçambicana.

O artesanato é realmente muito barato! E quando eu falo ‘muito’, pense em ‘MUITO’! Se parar pra pensar em todo o trabalho para fazer aquelas pinturas e esculturas, fora a experiência e a expressão artística você fica até aborrecido em pagar tão pouco.

Central Market, Maputo - Mozambique

Mercado Municipal de Maputo, Moçambique.

Caminhando de dia deu pra reparar algo a mais nas pessoas. Como são, como vivem. Tudo aquilo que nós tínhamos imaginado em relação ao espírito africano, a alegria no rosto das pessoas, a energia… sabe aquelas coisas que a gente vê pelas transmissões de Olimpíadas e Copa do Mundo? Pois então, é assim mesmo. O colorido das roupas transparece bastante a maneira colorida como encaram a vida. Não tem pessoa mau humorada, indisposta. Só vendo pra entender. Claro que essa não é uma conclusão tirada em dois dias de viagem, mas uma marca que levamos por todo o período lá.

Falando em roupa, o traje típico moçambicano são usos diferentes de um pano chamado capulana. A história indica que a capulana chegou na África por volta do século IX em meio a trocas comerciais entres árabes persas e povos que viviam ao longo do litoral. Foi incorporada de maneira ampla em todo o vestuário. Mulheres usam como saia, como turbante, como acessório para carregar os filhos, homens usam em camisas e blazers. Nas casas, as capulanas são usadas cobrindo a mesa ou o sofá. Foi a maior marca material, para nós, no Moçambique.

A família, escultura em madeira típica como souvenir, indica outro aspecto cultural forte no país, a matriarcalidade.

Algumas capulanas que trouxemos ao Brasil

Mozambique family

Típica escultura moçambicana em madeira, a Família.

Depois do Mercado Municipal percebemos que muitos artesanatos são vendidos por ambulantes no lado de fora, pois para ter-se uma banca lá dentro há um valor que boa parte do vendedores não tem como ou não estão dispostos a pagar. Claro, nos ambulantes tudo é mais em conta.

Almoçamos em um restaurante chamado O Criador, próximo ao mercado, meio caminho em direção ao Gil Vicente. Peixe serra, peixe vermelho e costelinha de porco, tudo com legumes e batata frita. Chope a 50 MZN (R$ 2,50) e cada um dos pratos, que serviam duas pessoas, 400 (R$ 20). Um dos peixes, o vermelho, não estava muito legal.

Caminho entre o Mercado Municipal e o restaurante O Criador.

A nossa tarde e o restante do dia vai para a próxima postagem.