Esta semana não consegui postar vídeo algum. Fiz cirurgia de extração dos sisos e fiquei de molho no final de semana.

Mas, aproveitando o gancho…

É verdade que os sisos são dentes sem utilidade e que estão sumindo ao longo da evolução?

Vamos por partes. Em primeiro lugar, essa ideia de que por não serem utilizadas, as estruturas vão “sumindo”, é lamarckista e baseada em ‘uso e desuso’ e ‘transmissão de caracteres adquiridos’. Esses conceitos já foram sobrepostos pela teoria evolutiva de Darwin desde a publicação do ‘Origem das Espécies’, em 1859.

Para a teoria moderna da evolução, que leva em conta os preceitos darwinistas e conceitos atuais de biologia molecular, de modo resumido, as estruturas podem atrofiar ou até sumir de um organismo quando elas passam a representar uma desvantagem adaptativa ao ser que as carregam. Desta forma, o indivíduo que portar aquela característica X apresentará menor chance de sobrevivência e deixará menor quantidade de filhos semelhantes a si, o que, a longo prazo, trará o desaparecimento de tal estrutura dentro das linhagens daquela população.

O contrário também é válido. Se por obra de alguma mutação, um organismo nascer com um uma mínima diferença fenotípica (anatômica ou não) que lhe traga alguma vantagem perante os demais indivíduos de uma população, este tende a viver mais, deixar mais descendentes e perpetuar sua característica ao longo de todo o grupo, a ponto daquilo se tornar parte daquela espécie.

Tendo isso em mente, vamos pensar nos sisos. Nossa arcada dentária completa é formada por 20 dentes decíduos (de leite) e 32 permanentes. Os 3 últimos dentes de cada lado da arcada dentária, superior e inferior, são chamados de molares. Os sisos são os terceiros molares e os últimos dentes a darem as caras. Isto acontece lá pelos 18 anos, e por tal motivo, acabaram sendo apelidados de dentes do juízo.

O grande problema é que os sisos, na grande maioria das vezes, estão atravessados, crescendo em sentido contrário aos demais dentes. Além disso, por ficarem bem no fundo da arcada dentária, são difíceis de serem higienizados, provocando cáries, infecções e mau hálito.

Por que então temos estes dentes?

Vamos pensar no seguinte: a linhagem Homo tem cerca de 2,2 milhões de anos aqui no planeta. De lá pra cá nossos hábitos e modos de vida mudaram tanto que seria impossível para a maioria dos seres humanos atuais viverem nas condições pré-históricas e vice-versa. Uma dessas mudanças tem relação com a alimentação. O humano do passado comia folhas, raízes, frutos e carne crua. Sua mandíbula era maior e sua atividade mastigatória, mais intensa. Havia espaço para os sisos.

Com o domínio do fogo e o cozimento dos alimentos, a mastigação se tornou menos intensa e o maxilar começou a perder espaço para o crescimento craniano, pela seleção natural de indivíduos com cérebros cada vez maiores.

Com mandíbulas inferiores e superiores reduzidas, pouco espaço restou aos sisos. Mesmo assim, alguma função ainda caberia ao último conjunto dentário. Pois bem, até o desenvolvimento da agricultura, a expectativa de vida de um ser humano não passava de 40 anos. Quando seus sisos apareciam, provavelmente mais da metade de suas vidas já tinham corrido e seus segundos molares já estavam bastante desgastados ou até já tinham caído. Acredita-se que os dentes do juízo podiam ser substitutos dos molares perdidos.

Contudo, em tempos modernos, mesmo com o açúcar, cáries e tudo mais, os dentes podem ser mais bem preservados e até restaurados, e os sisos ficam ali só atrapalhando mesmo.

Por esses motivos é que depois dos 30 resolvi retirar os meus últimos molares. Me incomodavam há mais de 10 anos e nunca tinha tomado vergonha na cara pra arrancá-los de uma vez. Agora foi.

A cirurgia foi simples e nem fiquei inchado.

Por fim, não sabemos ainda ao certo se os sisos têm tendência real a sumir. O fato é que se você tem ou não eles, isso não vai representar necessariamente uma desvantagem adaptativa a ponto de diminuir sua expectativa de vida e tamanho da prole. É provável que esses dentes tortos e desnecessários fiquem conosco por muitos e muitos anos. Cabe a nós, quando necessário, extraí-los.