Com um pouco de atraso, uma nova seção do blog está aberta: Biologia em Férias. O intuito é compartilhar com vocês um guia de viagem pessoal dos locais por onde passamos nossos dias de descanso.

No ano de 2016 fomos ao Moçambique e o relato de viagem será dividido em três partes. A primeira será sobre generalidades a respeito do país e os motivos da viagem. Em seguida falarei um pouco sobre Maputo, a capital moçambicana, e a ida ao Kruger Park, na África do Sul. Por último, o tema será as praias visitadas e o nosso regresso ao Brasil.

Por todo o guia abrirei espaço para falar um pouco das pessoas e das experiências vividas por lá. Espero que gostem. Boa viagem!

Quem foi?

Nossa trupe foi composta por Camila e eu, meu irmão Henrique e um casal de amigos, Beto e Angélica. Todos nós moramos em Francisco Beltrão, no interior do Paraná e saímos do Brasil via aeroporto do Galeão (RJ) no dia 15 de dezembro para retornar de lá no dia 4 de janeiro.

Por que Moçambique?

O país do sul da África não é uma rota muito comum para turismo e, muito embora, fosse um desejo de todos conhecer o primeiro continente, não havíamos planejado absolutamente nada sobre essa viagem, muito menos tínhamos informações maiores sobre Moçambique. O que rolou mesmo é que no final do ano passado a Transportadora Aérea Angolana (TAAG) resolveu alavancar sua marca no exterior e ofereceu passagens em um preço promocional cerca de ¼ mais baratos que os valores convencionais. Tal empresa passou por maus momentos no passado, sendo inclusive impedida de voar no território da União Europeia. Atualmente ela é administrada pela Emirates.

Foram disponibilizadas 4 mil passagens promocionais para Moçambique, Namíbia e África do Sul. Para os dois últimos países os voos já estavam cheios, portanto viajamos para Moçambique por apenas R$1200,00 (ida e volta com taxas já inclusas). O Beto foi quem viu a promoção no melhoresdestinos.com.br e nos ligou num domingo de noite. A compra de todos os cinco foi realizada neste mesmo dia, 30 de outubro de 2016.

Pra quem gosta de viajar barato esse site é excelente, tem promoções todos os dias. Mas sejam rápidos, em grandes promoções normalmente os voos lotam em um ou dois dias.

mozambique map

Antes de viajar… fazer o visto

Depois de comprada a passagem descobrimos algumas coisas importantes por meio da Camila. Para visitar o país é necessária a emissão de um visto. Deve-se preencher e imprimir um formulário disponível no site da embaixada moçambicana e mandá-lo assinado pelo correio junto com o passaporte original com validade mínima de seis meses; Cópia das páginas 1 e 2 do passaporte; Duas fotos tipo 3X4; Cópia da reserva do hotel ou carta convite de quem convida com a assinatura reconhecida em cartório; Cópia do certificado internacional de vacina contra febre amarela; e um comprovante de depósito de uma taxa no valor de R$250,00 (para entrada simples e única no país) ou R$600,00 (para entrada múltipla dentro do período de 90 dias).

Com relação a reserva de hotel, fizemos pela internet para apenas dois dias. Não é necessário ter todos os dias de hospedagem predeterminados para retirar o visto.

A Embaixada do Moçambique fica em Brasília e todo o processo de aquisição do visto demora cerca de 15 dias úteis contados da data de chegada dos seus documentos lá. Caso queira receber seu passaporte de volta com urgência existem outras opções no site com pagamentos de valores maiores. Além da taxa, é importante também enviar o valor do Sedex para que eles mandem o seu documento já autorizado.

Dá uma certa aflição pensar que o seu passaporte está “por aí” e que ele deve chegar até uma data limite, caso contrário a viagem será cancelada… mas tudo ocorreu bem, menos com a Angélica. Por engano, o pessoal da embaixada acabou mandando o passaporte de outra pessoa no lugar do documento dela. E o pior é que ninguém viu o equívoco até 3 dias antes do voo. Por fim, depois de mil telefonemas e conversas, o pessoal em Brasília conseguiu enviar esse passaporte por transporte aéreo até o Aeroporto Afonso Pena (Curitiba), de onde íamos pegar o voo até o Rio. Foi tudo em cima do laço. Na noite do dia 14, às 22h50 pegamos o passaporte dela para voar no dia seguinte às 6h da manhã.

Pior de tudo foi descobrir que o visto poderia ter sido retirado lá mesmo, pagando uma taxa de aproximadamente R$135,00. A Camila, quando havia ligado para embaixada, perguntou se o visto não poderia ser feito em território moçambicano. O pessoal de maneira muito segura disse que não, “em hipótese alguma”… e embarcamos nessa.

Generalidades

O país fica na porção sul-sudeste da África, em contato com o oceano Índico. Ao norte faz divisa com Zâmbia, Malawi e Tanzânia, a oeste com Zimbábue, África do Sul e Suazilândia. A maior parte do território fica em região tropical, mas Maputo, a província e capital, no sul de Moçambique, já está em faixa subtropical.

No verão as temperaturas atingem a casa dos 45 graus e no inverno não ficam abaixo de 15, exceto em alguns poucos locais de maior altitude. A vegetação predominante é a savânica com alguma influência tropical, formando florestas densas ao norte.

Moçambique não está entre os países mais lembrados com relação aos famosos safaris africanos em virtude da longa Guerra Civil (de 1976 a 1992). Nela, grande parte da fauna foi caçada (e dizimada) para servir de alimento para a população que estava a definhar e também com intuito de capitalizar grupos militares com a venda de produtos de origem animal, como o marfim e o chifre de rinoceronte.

Recentemente, programas governamentais têm incentivado a reintrodução de animais em ambientes preservados e parques nacionais estão sendo monitorados e tutelados para que possam também serem utilizados com fins turísticos. Embora não tenhamos conhecido nenhum parque moçambicano, nos informamos com locais e gringos de que no Parque da Gorongosa, no centro do país, já é possível realizar passeios espetaculares em meio a elefantes, zebras, búfalos, rinocerontes e até felinos.

A língua oficial por lá é o português (similar ao falado em Portugal), contudo são listadas 43 línguas para o país. Destas, 41 são de origem bantu (benue-congolesas) e uma é de sinais. No norte e centro do país fala-se mais o emakhuwa, já no sul o changana e o elomwe. Conhecemos em Vilankulo pessoas que falavam também a língua xítsua. Apenas 10,7% da população considera o português a sua língua materna (Fonte Wikipédia).

Se faz importante comentar que nenhuma dessas línguas é considerada pelos moçambicanos como um dialeto. A simples equiparação de suas línguas a dialetos é uma ofensa. Consideram o português uma língua imposta, mas não legítima.

A questão da religião no país ainda não é bem documentada. De acordo com o censo de 2007 do Instituto Nacional de Estatística, 28% da população é católica romana; 27% é protestante, pentecostal, ou evangélica; 18% é muçulmana; e cerca de 18% da população não professa nenhuma religião ou crença. Este dado é defasado e provavelmente não é mais muito representativo. Conversamos com pessoas que nos afirmaram que 60% da população lá é muçulmana. De fato, na capital, é visível uma grande quantidade de praticantes do islamismo, no entanto, fora de Maputo, são poucos. É perceptível também uma presença muito forte de igrejas evangélicas brasileiras por lá, principalmente a Assembleia de Deus e a Universal.

Breve história

Os primeiros ocupantes da região de que temos registros (a cerca de 8 mil anos antes de cristo) eram caçadores-coletores Khoisan, derivados dos primeiros povos, do nordeste africano. Mais tarde, já no século I, inicia-se a expansão Bantu. Este povo proveniente da região hoje tida como Camarões, Gabão e Congo chegou ao sudeste africano por volta do século IV e deles são provenientes a maior parte das raízes culturais moçambicanas (arte, vestes, música, línguas).

O território já era bastante ocupado quando no século VIII chegaram árabes no intuito de expandir a religião islâmica e o comércio. Os árabes tomaram regiões litorâneas e boa parte das ilhas, criando por lá centros comerciais e postos de parada para embarcações de todos os portes.

Somente em 1498 é que Vasco da Gama chega ao centro comercial insular de propriedade do Sultão Mussa Bin-Bique (ou Mussa Al Bique). Tal localidade ficara conhecida como “Ilha de Mussa Al Bique” e mais tarde, Ilha de Moçambique. O nome da ilha, pela sua importância nas rotas marítimas, se tornou o nome do território que mais tarde seria colônia portuguesa.

Da mesma maneira que nas outras colônias, Moçambique foi explorada principalmente pelas suas riquezas naturais e pelos nativos, que serviriam como mão de obra escrava principalmente em direção ao mundo árabe. Poucos moçambicanos foram destinados ao Brasil, já que a mão de obra por aqui era proveniente de países do lado Atlântico.

Moçambique só conseguiu sua independência no ano de 1975 por meio de um movimento liderado por Samora Machel, fundador da Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO. A libertação do país tem apenas 40 anos e por isso ainda são nítidas as marcas do colonialismo nas relações sociais, de trabalho e na infra-estrutura como um todo.

Mesmo em franca possibilidade de crescimento e de se firmar como nação coesa, Moçambique sofre de conflitos políticos e sociais internos. Por quase 20 anos, logo após a independência, o país esteve em uma terrível guerra civil que deixa marcas até hoje.

Dinheiro e câmbio

A moeda de Moçambique é o Metical (MZN). As moedas são de 50 centavos, 1, 5 e 10 Meticais (MZN). As cédulas são de 20 (rinoceronte), 50 (impalas), 100 (girafas), 200 (leões), 500 (búfalos) e 1000 MZN (elefantes). Em todas elas está estampado o rosto de Samora Machel, militar moçambicano que liderou o movimento de independência frente a Portugal e primeiro presidente do país.

50 MTZ

Antes de viajarmos compramos dólares no câmbio de U$ 1,00 para R$ 3,50. Havia lido na internet que muito se negociava em dólar no país e que eles passavam por uma crise inflacionária bastante grande.

Chegando lá descobrimos que na casa de câmbio do aeroporto (que trabalha com o câmbio oficial) eles trocavam Reais por Meticais. Não era preciso necessariamente ter dólares para viajar, mesmo assim, não sei se esse câmbio em Reais é feito em qualquer lugar, desta forma, é bom contar com um valor em moeda norte-americana. Trocamos 1 dólar por 73 Meticais.

Diferente do Brasil, o câmbio informal não tem tanta diferença de valor para o formal em casas registradas, ou seja, não adianta ficar procurando muito por câmbio paralelo na ideia de economizar. O melhor é trocar em casas autorizadas mesmo… mas em caso de emergência, converse com qualquer proprietário de loja e ele saberá te indicar alguém que trabalha com câmbio.

Pra ficar mais fácil, nas outras postagens, todos os meus valores agora serão apontados em Meticais (MZN), sendo assim, tenham noção aproximada de que:

  • U$ 1,00 = 70 MZN
  • R$ 1,00 = 20 MZN

Considerando que a nossa moeda tem um peso maior do que a deles e que o turismo lá não é forte a ponto de explorarem demais os valores das coisas, tudo acabou saindo relativamente barato. Vou listar pra vocês alguns itens de consumo e o valor deles para que tenham uma noção.

  • Almoço com peixe ou bife, arroz e salada em lugar não turístico: MZN 250,00 ou R$ 12,50
  • Mesmo almoço em lugar turístico: MZN 350,00 (R$ 17,50)
  • Almoço arregado com frutos do mar ou carne especial: MZN 500,00 (R$ 25,00)
  • Uma garrafa de 1,5L de água gelada: MZN 50,00 (R$ 2,50)
  • Lata de Coca-Cola: MZN 50,00 (R$ 2,50)
  • Lata de Spar-Letta (refrigerante local): MZN 30,00 (R$ 1,50)
  • Garrafa de 500mL de cerveja 2M (boa) em mercearia na rua: MZN 50,00
  • Mesma cerveja em um restaurante ou bar: MZN 80,00 (R$ 4,00 !!!)
  • Chope 500mL da mesma marca: MZN 80,00
  • Pernoite em hotel simples, mas limpo, com bom chuveiro e ar condicionado: MZN 1000,00 (R$ 50,00)
  • Táxi na capital: de MZN 100,00 a no máximo dos máximos, considerando que você vá realmente muito longe, MZN 300,00 (IMPORTANTE: o carros não tem taxímetro e você deve fechar o valor antes de fazer a corrida).
  • Artesanatos de tamanho médio em madeira, de excelente qualidade e muito bonitos: MZN 400,00 (R$ 20,00).

2M Beer

mozambique handcrafts

Peculiaridades do país e outras informações importantes

Tendo em vista que você está indo para um país tropical de uma cultura completamente diferente daqui do Brasil, tenha em vista algumas coisas, tais como:

Leve repelente, por lá tem muito mosquito!

Estivemos em Maputo e por lá foi tudo tranquilo, mas em Tofo e Vilakulos a mosquitada pega sem dó. Eu não tenho muitos problemas com eles, mas pra quem tem o sangue mais “doce” os insetos podem ser um incômodo bastante grande na hora de dormir, principalmente. Nas acomodações que ficamos tínhamos mosquiteiros, mas os mosquitos ainda deram um jeito de entrar e azucrinar.

Devo me preocupar com a malária?

Todas as pessoas com quem eu conversei me falaram que a malária realmente é um problema nas cidades mais ao interior, mas que hoje, comparado com o passado, é uma doença muito bem controlada. Não tivemos ninguém contaminado e não ficamos sabendo de ninguém que tenha contraído a doença por lá. De qualquer forma, é importante ressaltar que o mosquito transmissor da doença não é o pernilongo, nem o Aedes e sim, o Anopheles. A malária começa a se manifestar de 7 a 9 dias após o contato com o protozoário causador. O principal sintoma é uma febre muito forte. Nessa situação, corra ao médico.

A comida por lá é muito boa, barata, mas diferente da nossa.

Você vai ficar com saudade de comer arroz e feijão, isso é óbvio, mas aproveite o que eles têm de melhor na cozinha… peixes, lulas, polvos, camarões, lagostas, tudo isso é muito barato e abundante (leia mais nas outras postagens).

Pelo menos aqui no sul não estamos acostumados a uma comida muito condimentada. Como Moçambique tem grande influência de árabes, indianos e portugueses, a mistura de diferentes condimentos é muito comum. O mais usado é o curry, que lá chamam de caril. Não deixe de comer caril de cabrito, normalmente servido em restaurantes árabes ou indianos, e lagostas gigantescas com mais de 1kg a preço de banana no Mercado do Peixe.

Falarei da comida aos poucos, a medida que a viagem for desenrolando, nas próximas postagens.

Como negociar?

Nas ruas praticamente qualquer produto é negociável. Nada tem etiqueta de preço. A partir do momento que o pessoal manja que você é estrangeiro eles grudam em ti e o preço dos produtos vai baixando a medida que você vai falando “não”. Os preços para europeus são maiores, mas para nós brasileiros eles fazem excelentes descontos. Cuidado para não ser abusivo ou debochado. Todos os moçambicanos com que tivemos contato foram sempre muito educados e demonstravam muito carinho pelo povo brasileiro. Pague o que for justo, não explore. Se não quiser mesmo o produto oferecido, olhe nos olhos da pessoa, agradeça e diga que realmente você não está interessado.

Nas lojas em geral os preços são fixos.

O que você não pode esquecer de levar e o que não deve levar.

Roupas leves, regatas, bermudas, chinelos, protetor solar e óculos de sol são óbvios. Não leve mais de uma calça, vai por mim. Levei apenas uma e só usei nos voos. O mesmo vale para casacos.

Leve no seu kit de socorros um repositor de flora intestinal (você acha na farmácia pelo nome comercial de Repoflor). É bem provável que você tenha um piriri na viagem.

Para as meninas é legal levar absorventes higiênicos daqui. Lá só achamos uns realmente enormes e um tanto desconfortáveis.

Não se preocupe com desodorantes ou xampu, lá esses produtos são bem mais baratos do que aqui. Tenha o mínimo para os primeiros banhos até você encontrar um mercado. Papel higiênico para emergências também é bom levar sempre consigo.

Levamos uma lanterna e ela foi muito útil, principalmente porque as quedas de luz são muito comuns. Também porque algumas ruas por onde transitamos não tinham postes.

Cadeados com duas chaves (uma pra levar consigo e outra pra esconder em uma bolsa) deixam o viajante mais tranquilo em lugares onde há muito movimento como em hostéis. Tivemos sempre muito cuidado com os nossos pertences eletrônicos e dinheiro, mas não nos sentimos ameaçados em nenhum momento.

Leve sua carteirinha internacional de vacinação. Ela pode ser necessária como anexo ao seu passaporte para a identificação.

Como se comunicar

Chegando em Moçambique, se você pretende manter contato com o pessoal de casa, compre um chip de celular. Adquirimos um da Vodacom que custou apenas 20 MTZ (ou R$ 1,00). Com mais 30 MTZ colocamos créditos para ligações, SMS ilimitado para Vodacom e um pacote de dados que nos permitiu conversar com o pessoal de casa via WhatsApp por 3 dias.

A internet wi-fi não é comum nos estabelecimentos comerciais, mesmo em restaurantes e bares. Hotéis oferecem, mas normalmente é cobrado.

 


Pessoas, é isso. As próximas postagens serão recheadas de fotos e mostrarão um pouco do que foi vivido durante os vinte dias de nossas férias. Acho que vão gostar.