Assistindo a documentários, filmes e até animações você já deve saber da incrível capacidade olfativa de um tubarão. Estima-se que eles possam ser atraídos por uma única gota de sangue pingada a 300m de distância em mar aberto. Isso é realmente surpreendente, mas, há um outro sentido ainda mais aguçado nos reis dos mares. A eletrorrecepção.

No focinho de um tubarão é possível observar pequenas perfurações que de uma distância não muito próxima parecem até uma barba mal feita. Tais perfurações são as chamadas ampolas de Lorenzini.

Tais estruturas foram descritas pela primeira vez em 1678 pelo anatomista italiano Stefano Lorenzini e consistem em perfurações conectadas a pequenos bulbos gelatinosos (ampolas) que se estendem em “fios” até uma central que se comunica com o sistema nervoso central do animal. Na época, Lorenzini não conseguiu decifrar a função das ampolas e as considerou como “algo oculto”. Somente em meados século XIX foi dada as estruturas uma provável função sensitiva e, com testes fisiológicos e análise microscópica, no final do mesmo século foi confirmado o caráter eletrorreceptor das ampolas.

No início dos anos 1960, o biólogo britânico R. W. Murray estabeleceu que as ampolas têm sensibilidade de até 15 bilionésimos de 1 volt. De forma ilustrativa, a corrente elétrica criada por uma pilha de 1,5 volt com um polo ligado 300km distante do outro, no mar, pode ser detectada por um tubarão.

ampullae of lorenzini

Mas afinal de contas, qual é a utilidade de um sentido tão aguçado de detecção de campos elétricos para um tubarão? As pistas para essa resposta começam a aparecer quando, na década de 1970, o biólogo holandês Adrianus Kalmijn conseguiu demonstrar que animais produzem campos elétricos na água do mar, principalmente quando em movimento. Tais campos elétricos são realmente muito pequenos, porém perceptíveis pelas ampolas de Lorenzini.

Posteriormente, testes com eletrodos que criavam campos igualmente pequenos foram realizados em ambiente artificial e natural na expectativa de que tubarões tivessem seus comportamentos alterados. Para a felicidade dos pesquisadores, isso foi exatamente o que aconteceu. No trabalho, cientistas concluíram que os campos elétricos promovem no tubarão um sentido de atração ainda mais forte do que o do olfato, que até então era considerado o sentido mais refinado do peixe cartilaginoso. Tubarões, ao perceberem uma fonte de sangue de um lado e um campo elétrico de outro, optavam por “atacar” a fonte de eletricidade enterrada na areia ao invés de procurarem a fonte de sangue na água.

Atualmente, as pesquisas indicam que campos magnéticos (como aqueles criados por ímãs) podem criar efeito contrário, provocando a repulsão dos tubarões. Os mecanismos de tal efeito ainda não foram bem elucidados, mas provavelmente têm relação também com as ampolas. Pensando nisso, já estão sendo testados anzóis magnéticos que provoquem a repulsão de tubarões, evitando assim, a pesca acidental destes animais. Quem sabe, pranchas de surf também possam ser incrementadas com ímãs, já que todo ano temos notícias de ataques de tubarões aos surfistas.

Agora, você já viu aqueles caras que “hipnotizam” os tubarões? Adivinha com o que isso tem a ver… olhe o vídeo e tire sua conclusão.

Referências:

The electric sense of sharks and rays. A. J. Kalmijn, em Journal of Experimental Biology, vol. 55, págs. 371-383, 1971.