No último dia de fevereiro Leonardo DiCaprio levava a (pesada) estatueta do Oscar para casa. No seu discurso de agradecimento o ator foi descolado ao fugir do tradicional e largou o verbo para uma questão ambiental urgente: Nosso planeta está aquecendo. E bastante.

“‘O Regresso’ é sobre a relação entre Homem e o mundo natural, um mundo em que nós, coletivamente, sentimos em 2015 como o ano mais quente já registrado. A produção do nosso filme precisou se mudar para a parte sul deste planeta apenas para conseguir encontrar um pouco de neve. As mudanças climáticas são reais e estão acontecendo neste momento. É a ameaça mais urgente que nossa espécie enfrenta, e nós precisamos que mundo, coletivamente, pare de procrastinar. Nós precisamos apoiar os líderes em todo o mundo, apoiar aqueles que não falam pelos grandes poluidores ou pelas grandes corporações, mas os que falam por toda a humanidade, pelos povos indígenas do mundo, pelas bilhões de pessoas sem privilégios que serão as mais afetadas por isso, pelas crianças das nossas crianças, e pelas pessoas que tiveram suas vozes afogadas pela ganância. Eu agradeço a todos por esse incrível prêmio. Não vamos considerar que nosso planeta já está garantido. Eu não considerei este prêmio como garantido. Muito obrigado.”

Com esse 2015 abrasador, estranho seria se 2016 fosse diferente. Mas não está sendo. Janeiro foi registrado como o mês mais quente da história desde que existem medições de temperatura (ou seja, desde 1880) e o nosso outono aparentemente chegou apenas ontem, 27 de abril.

Se tu deres uma olhadinha no mapa de variações de temperatura dá pra entender que janeiro tem uma variação com relação às médias bastante grande. Essa variação é menos sentida aqui para nós, em que as temperaturas destoam algo de 0,5 a 1,0 graus Celsius. Mas no Ártico o bicho pega. Janeiro teve uma temperatura média superior em quase 13 graus. E vamos lembrar, no Ártico esse mês representa o meio do inverno!aquecimento global

O impacto óbvio dessa discrepância é o derretimento de calotas polares e consequente aumento do nível dos mares. Contudo, o que fica escondido são os impactos indiretos.

Nós aqui no Brasil, principalmente no sul, percebemos que o ano anterior teve um inverno muito mixuruca. Os casacos mais pesados ficaram guardados, os vinhos também. Não por coincidência setembro, outubro e novembro de 2015 foram extremamente chuvosos em decorrência do El Niño que castigou.

O tal aquecimento global, que muita gente ainda acredita que não existe, tem consequências severas. Ou você não percebeu que esse ano a gente está sendo aterrorizado por dengue, zika e chikungunya? Pois então, mosquitos em geral, e claro, o Aedes aegypti, se procriam em ambiente aquático, mas as larvas detestam o frio. Como no ano passado nosso inverno foi suave, a mosquitada não teve suas populações naturalmente reduzidas. Pra piorar, como falei antes, os meses seguintes foram de muita chuva e calor. Somado ao fato de mosquitos fêmeas de Aedes poderem deixar até 1500 descendentes em sua vida e os ovos cada vez mais resistentes poderem suportar até um ano em ambiente seco, pronto, a fórmula mágica foi feita! Eles multiplicaram-se como nunca. E a transmissão de doenças aumentou exponencialmente. Vírus que já rodavam na África, Ásia e América Central foram chegando ao Brasil e se espalhando sem qualquer empecilho.

Mas o buraco é mais fundo. A nossa Era Geológica, denominada já por alguns cientistas como Antropoceno (a era do homem na Terra), é marcada por uma grande extinção em massa. Assim como no passado insetos gigantes foram pro saco, dinossauros e grandes mamíferos também, agora a vez é dos anfíbios. Estes animais são nitidamente uma transição do ambiente aquático para o terrestre e, por isso, muito frágeis. Se locomovem mal em terra, precisam de água para se reproduzir, seus pulmões são pouco eficientes e necessitam compensar a deficiência respirando pela pele.

Para que um tegumento (pele) consiga realizar trocas gasosas é necessário que este esteja sempre úmido. No entanto, umidade demais, associada as fortes chuvas e calor cada vez mais constantes tem permitido disseminação de um fungo bastante indesejado aos nosso amigos anfíbios. Este fungo, do grupo dos quitridiomicetos, se chama Batrachochytrium dendrobatidis (Bd) e é apontado como uma das principais causas da extinção dos anfíbios, principalmente na América do Sul.

O Bd se associa à cavidade bucal dos girinos e provoca degradação da queratina dos dentículos, dificultando a alimentação dos animais em uma fase bastante crítica. O resultado são distúrbios de crescimento e metamorfose (para a fase adulta) problemática. Quando o fungo se instala no adulto pode ser ainda mais complicado. Ele se associa à queratina na pele do animal, trazendo desequilíbrio às trocas gasosas, de água e eletrólitos. O anfíbio morre em pouco tempo de parada cardíaca.

Batrachochytrium dendrobatidis

Batrachochytrium dendrobatidis em anfíbio.

O que acontece, de fato, é que a extinção dos anfíbios é um processo natural e esperado. Mas, com aquecimento global, nós estamos acelerando essa extinção em até 200 vezes. Existe uma estimativa que de 1980 até agora, das 6500 espécies de anfíbios existentes no mundo, 122 já foram extintas. E outras centenas, de modo bastante impreciso, estão em altíssimo risco de sumirem do mapa. Em menos de 100 anos talvez tenhamos sapos, rãs, pererecas e salamandras como seres raros, conhecidos nos livros, mas que pouca gente viu. (Se você uma hora dessas encontrar um sapo ou semelhante, tire um selfie com ele. Bem provavelmente seu neto não terá essa oportunidade).

Um baita agravante com relação às doenças virais transmitidas por mosquitos é justamente a diminuição drástica das populações de anfíbios. Estes, quando em fase de girino, podem comer a larva do Aedes e, quando adultos, podem comer mosquitos reprodutivamente ativos. São controles biológicos gratuitos que a natureza oferece para o nosso bem estar e nós estamos irresponsavelmente ignorando.

O que cabe lembrar é que a natureza opera de maneira cíclica e que todos os seres estão interligados direta ou indiretamente. Quando nós optamos por ir de carro à panificadora que fica a duas quadras de casa ou consumimos de maneira compulsiva, emitimos gases estufa, colaboramos com a morte de anfíbios, estes deixam de predar mosquitos que transmitem Zika e podem desencadear a microcefalia no bebê que está em formação na barriga de alguém qualquer, ou de nós mesmos.

Por essas e outras, digo “Que venha o frio, que os mosquitos deem uma trégua, que criemos consciência para o aquecimento global, que anfíbios morram numa taxa menos acelerada! Valeu DiCaprio”.